A farra dos consignados e o pesadelo dos aposentados: Instituto Defesa Coletiva move ação contra INSS e Dataprev

O golpe silencioso que assombra os aposentados

Dona Lúcia* tem 72 anos e é aposentada. Depois de uma vida inteira de trabalho como auxiliar de serviços gerais, ela imaginava que finalmente teria um pouco de tranquilidade para cuidar da saúde e aproveitar os netos. Mas, a realidade virou um pesadelo. Sua aposentadoria, que sempre com muito custo deu conta das despesas da casa, começou a encolher sem explicação. A conta de luz atrasou. Faltou dinheiro para os remédios. E a feira do mês teve que ser cortada pela metade.

Desesperada, ela pediu ajuda à filha, que começou a investigar o extrato do benefício. Foi aí que descobriram: há meses vinha sendo descontada uma parcela de empréstimo consignado. Mas Dona Lúcia nunca solicitou nenhum empréstimo. Nem sequer reconhecia o nome do banco que aparecia nos lançamentos.

Com a ajuda da filha, dona Lúcia procurou o Instituto Defesa Coletiva. Após uma análise detalhada, ficou claro: o desconto era indevido. O valor vinha sendo subtraído de forma sistemática e silenciosa. A única explicação possível? Um vazamento de dados do INSS ou uma fraude que contou com a omissão dos órgãos responsáveis pela proteção dos beneficiários.

Esse não é um caso isolado. Milhares de aposentados e pensionistas vêm sofrendo com descontos indevidos de empréstimos que nunca contrataram. Essa realidade cruel é consequência direta da fragilidade no sistema de concessão de crédito consignado no Brasil.

Linha do tempo das fraudes no INSS

O Instituto Defesa Coletiva vem há mais de 5 anos denunciando a existência de descontos indevidos relacionados a crédito consignado. Porém, nada foi feito!

E agora casos como o da dona Lúcia ganharam repercussão em razão das operações da Polícia Federal que está apurando descontos indevidos nos benefícios dos segurados, o que acarretou prejuízos de bilhões de reais nos bolsos dos brasileiros.

Veja a linha do tempo da nossa atuação:

O que é crédito consignado — e por que virou um problema?

O crédito consignado é uma modalidade de empréstimo com desconto direto em folha de pagamento. Isso significa que as parcelas são abatidas automaticamente do salário ou benefício do tomador do empréstimo. Essa estrutura reduz o risco de inadimplência para os bancos, o que resulta em taxas de juros mais baixas e prazos mais longos de pagamento.

No Brasil, o crédito consignado surgiu em 1950, quando a Lei nº 1046/50 criou a possibilidade de consignação em pagamento para servidores públicos. Em 2003, foi ampliado para trabalhadores da iniciativa privada, especialmente para aposentados e pensionistas do INSS.

No início, parecia um bom negócio. Mas, com o tempo, esse sistema foi se tornando terra de ninguém: bancos passaram a usar dados obtidos irregularmente para oferecer (ou contratar diretamente) empréstimos sem o consentimento do beneficiário. O resultado? Descontos indevidos (como no caso da dona Lúcia), endividamento forçado e muito sofrimento para uma população vulnerável.

Recentemente, uma nova porta de golpes foi aberta. Agora, as possíveis vítimas são os trabalhadores com carteira assinada, inclusive empregados de MEI, rurais e domésticos. 

Isso porque a Medida Provisória nº 1.292, de 12 de março de 2025, criou o chamado Crédito do Trabalhador, que é um programa de consignados para empregados vinculados à CLT, que utiliza o FGTS como garantia de empréstimos. 

Essa nova modalidade coloca em risco milhares de trabalhadores que estão vulneráveis a vazamentos de dados, golpes e superendividamento, já que o sistema de gestão de consignados do INSS se mostrou extremamente falho e perigoso para os segurados, beneficiando apenas os bancos.

 

O que o Instituto Defesa Coletiva está fazendo?

Além de processos específicos contra os bancos, em 2021, o Instituto Defesa Coletiva ajuizou uma ação estrutural em face do INSS e da Dataprev, para dar um basta nesse cenário de violações de direitos que tanto aflige, principalmente, pessoas idosas.

Os principais pedidos são:

  • Maior segurança na concessão dos empréstimos consignados, impedindo fraudes.
  • Combate ao vazamento de dados pessoais e maior responsabilidade dos órgãos públicos, em conformidade com a LGPD.
  • Fiscalização e punição de instituições financeiras que violam os direitos dos consumidores.

A ação busca garantir justiça e proteção para quem mais precisa: aposentados e pensionistas que muitas vezes têm no benefício previdenciário sua única fonte de renda.

Em maio de 2025, um novo processo coletivo foi iniciado para pedir ao Poder Judiciário que determine o pagamento de indenização no valor de R$ 5.000 para os segurados do INSS, em razão da violação dos dados dos brasileiros e da omissão na tomada de medidas protetivas, mesmo após os alertas do Instituto Defesa Coletiva.

Na ação civil pública, apontamos que o art 54 da Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD) foi descumprido: “o tratamento de dados pessoais será irregular quando não fornecer a segurança que o titular dele pode esperar, respondendo o controlador ou o operador pelos danos decorrentes da violação dessa segurança de dados, sempre que deixar de adotar as medidas de segurança”. A Dataprev confessou ao TCU que ocorreu o vazamento de 400 senhas de acesso aos seus sistemas e que há 60 dispositivos estranhos instalados em suas redes.

Paralelamente, temos vários processos coletivos contra bancos e instituições financeiras que praticam golpes e fraudes em pessoas idosas beneficiárias da autarquia previdenciária.

Essas ações ajudam milhares de pessoas idosas a terem mais segurança no mercado de consumo, já que as decisões, até o momento, têm garantido, entre outros pontos positivos, alterações no sistema especifico de contratação de bancos; restituição dos valores descontados indevidamente e; multas pela prática de consignados sem voluntariedade.

Conheça os detalhes de cada processo no banco de dados das ações coletivas.

Resultados importantes

O processo ajuizado em 2021 corre na 12ª Vara Federal da Seção Judiciária de Pernambuco, com o número 0802150-02.2022.4.05.8300.

O Instituto Defesa Coletiva conseguiu uma decisão liminar extremamente importante, pela qual foi reconhecida a necessidade de alteração do sistema de concessão de consignados do INSS.

Entre as determinações da justiça federal, constam os seguintes pontos:

  • o bloqueio dos benefícios concedidos antes de 2018 para empréstimos consignados. Caso o consumidor queira contratar o empréstimo, basta solicitar o desbloqueio no Meu INSS ou na Central 135.

  • a instauração de processos administrativos contra os Bancos BMG, PAN, CCB Brasil, Banco do Brasil, Olé Consignado, Ficsa, PAN, Safra e Cetelem.

Apenas após um pedido do Instituto Defesa Coletiva para que o representante legal do INSS seja preso e para que os convênios com os bancos para consignados fosse suspenso, o presidente da autarquia resolveu cumprir a liminar e bloquear todos os benefícios para novos empréstimos.

O desbloqueio só poderá ser feito por meio de biometria facial no aplicativo Meu INSS.

Mas isso ainda é preocupante, pois há relatos de fraude também nesse procedimento biométrico e alguns segurados relataram que não tiveram o benefício bloqueado automaticamente, o que mantém o risco de golpes contra aposentados e pensionistas.

Por isso, continue lendo para saber o que fazer para evitar os descontos indevidos.

 

Os números do problema

Mesmo após a concessão da liminar, o INSS permanece ineficiente quanto às medidas para proteger seus beneficiários, demonstrando a necessidade da tutela judicial pretendida pelo Instituto Defesa Coletiva.
Dessa forma, s situação continua alarmante — e os dados comprovam:

  • Segundo a Senacon, em 2023 foram registradas 20.024 reclamações por cobrança por serviço não contratado, não reconhecido, não solicitado – 304% mais do que em 2022, quando houve 4.960 casos*.

  • Em 2024, foram registrados em média 1.768 novos processos por dia entre clientes e bancos — muitos deles ligados a consignados não autorizados*.

  • O número total de brasileiros endividados chegou a 73,1 milhões em outubro de 2024. Pessoas com mais de 60 anos representam quase 20% dos endividados*.

Todo esse cenário demonstra a importância da ação do Instituto Defesa Coletiva. E para que as chances de vitória aumentem, a sua participação é fundamental.

Sua denúncia poderá ser usada como mais um indício de prova do descumprimento dos direitos dos segurados pelo INSS e pela Dataprev.

Como o consumidor pode se proteger

Apesar da responsabilidade ser dos órgãos públicos e das instituições financeiras, o consumidor pode tomar medidas para reduzir os riscos de sofrer golpes com empréstimos consignados.

 1. Confira se o seu benefício está bloqueado para empréstimos consignados

O INSS anunciou que cumpriu a liminar conquistada pelo Instituto Defesa Coletiva e bloqueou todos os benefícios para consignados. 

Porém, muitos consumidores relataram que não tiveram seus benefícios bloqueados automaticamente. 

Por isso, é importante que você confira sua aposentadoria ou pensão no aplicativo Meu INSS. Caso não esteja bloqueado, siga o nosso passo a passo para bloquear. 

Além disso, denuncie! Tire prints da tela e encaminhe para o Instituto Defesa Coletiva. A sua denúncia é muito importante para que demonstremos ao Poder Judiciário o descaso da autarquia com os consumidores e com as decisões judiciais.

 

 

 2. Bloqueie descontos associativos

A Polícia Federal revelou um grande escândalo de descontos indevidos realizados por associações nos benefícios do INSS. 

Para se proteger desses débitos não autorizados, realize o bloqueio da sua aposentadoria ou da sua pensão também contra as associações. 

Veja o nosso passo a passo para bloquear descontos associativos.

 

 

 3. Bloqueie chamadas de telemarketing

Inscreva seus números no site Não me Perturbe (naomeperturbe.com.br) para impedir ligações de bancos e financeiras oferecendo crédito.


Para saber o procedimento, é simples, acesse nosso passo a passo.

 

 4. Entre na lista de espera das ações coletivas

No site ou app Meu INSS, consulte o extrato de pagamento mensal. Verifique se há descontos desconhecidos ou contratos não reconhecidos.

Não acesse links encaminhados por mensagens ou e-mail. Não enviei selfies para contatos desconhecidos. 

O que fazer em caso de empréstimo não solicitado

Se você identificar um desconto de empréstimo que não contratou, siga os passos abaixo:

1.Entre em contato com o banco responsável pelo contrato e com o INSS imediatamente. 
2.Anote e guarde todos os números de protocolo e comprovantes das ligações, e-mails ou atendimentos.
3.Reúna todos os documentos: extrato do benefício, carta do banco (se houver), comprovantes de contato e identificação pessoal.
4.Busque ajuda com o Instituto Defesa Coletiva, o Procon, a Defensoria Pública ou com um(a) advogado(a) de confiança.

Quanto antes você agir, maiores as chances de suspender os descontos e reaver os valores.

Se o seu desconto indevido for de entidade associativa, acesse nossa cartilha que explica os próximos passos que o INSS estipulou para devolver valores desses descontos indevidos.

 

 

É hora de proteger quem sempre cuidou de nós

 

O caso da dona Lúcia que descobriu descontos indevidos em seu benefício é apenas um entre milhares espalhados pelo Brasil. A prática de concessão de crédito sem consentimento e o vazamento de dados dos beneficiários do INSS são problemas estruturais, que exigem respostas coletivas e firmes.

O crédito consignado, que deveria ser uma ferramenta de apoio, se tornou uma armadilha. Pessoas idosas estão sendo prejudicadas sistematicamente, muitas vezes sem entender o que está acontecendo. É papel do Estado, das instituições financeiras e da sociedade civil garantir que os direitos dessas pessoas sejam respeitados.

“Durante toda a vigência desse modelo de crédito, prevaleceram os interesses dos grandes conglomerados financeiros, em flagrante detrimento da proteção do segurado e da efetivação de seu direito fundamental à dignidade da pessoa humana. O Estado, ao se omitir, falhou em seu dever de proteção à parte vulnerável da relação de consumo, contribuindo para um cenário de exploração sistemática e institucionalizada dos aposentados e pensionistas”, Lillian Salgado, presidente do comitê técnico do Instituto Defesa Coletiva.

Vamos seguir atuando com firmeza para combater fraudes, garantir justiça e proteger os consumidores mais vulneráveis.

A sua participação é fundamental!


Se você ou alguém da sua família sofreu desconto indevido no benefício do INSS, denuncie. Quanto mais relatos forem reunidos, maior será a força das 2 ações coletivas para responsabilizar o INSS e a Dataprev e mudar a realidade dos aposentados e pensionistas brasileiros.